Infelizmente para muitas pessoas ignorantes (e não são poucas), tanto no senso comum, como no meio acadêmico, o conceito de cultura, em relação a muitos antropólogos e sociólogos é visto de forma totalmente equivocada. Afinal, segundo a antropologia e a sociologia o que é cultura? Bem, não quero aqui discorrer algo que daria folhas e folhas inimagináveis de dissertação, mas o que proponho é apenas citar algumas noções básicas do conceito de cultura segundo alguns antropólogos, sociólogos e até da legislação federal do Brasil.
Para Edward Tylor (1871), cultura é “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.
Segundo grande parte dos estudos antropológicos, em resumo, cultura abrange as ações e práticas de um indivíduo no ambiente em que ele vive ou viveu, estas ações, estariam incrustadas e intrinsecamente ligadas a memória coletiva de um determinado grupo, no qual toda esta dinâmica geraria expressões de identidade e, caracterizaria determinado grupo social.
Para o sociólogo Pierre Bourdieu (que me influenciou bastante no conceito de cultura), a identidade de um indivíduo está ligada a símbolos que o representa, estes símbolos podem estar nas vestimentas, comidas típicas, músicas e até, segundo Bourdieu, em sotaques de um determinado grupo ou povo.
As relações humanas possuem uma ênfase sociológica de idéias entrepostas, esta iteratividade social pode fazer com que grupos, de forma coletiva, interajam com o ambiente em que vivem e interfiram no mesmo. Esta interação gera as práticas sociais que, podem ser consolidadas como expressões culturais. Tudo isso depende do reconhecimento local do grupo precursor de determinadas ações que, são reconhecidas como parte da cultura local pelos mesmos e, para Bourdieu, essas expressões culturais e identitárias locais, devem também serem reconhecidas por outros grupos sociais.
Os símbolos determinam muitas vezes a nacionalidade ou o bairrismo de pessoas que nasceram em regiões separadas por um rio por exemplo (Bourdieu:1998:112).
Para Bourdieu os símbolos podem ser usados por um grupo dominante, são objetos que podem ser como "armas", em uma luta simbólica que firmam características de reconhecimento que produz uma certa mobilização social (Bourdieu, 1998 p. 120). Para ele também “[...]a procura dos critérios ‹‹objetos›› de identidade ‹‹regional›› ou ‹‹étnica›› não deve fazer esquecer que, na prática social , estes critérios (por exemplo, a língua, o dialeto e o sotaque) são objeto de representações mentais, quer dizer, de atos de percepção e de apreciação, de conhecimento e de reconhecimento em que os agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos , e de representações em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou em atos, estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores[...]”. (Bourdieu, 1998, p. 112, grifo do autor).
De forma simplificada e didática, para Bourdieu, existem determinados grupos que criam uma estética cultural estereotipada, que possuem intenção de estarem em ares de superioridade, sejam elas culturais como: da moda, musicais, etc. Assim, as marcas de roupas, por exemplo, as músicas consideradas “culturais” e outros estereótipos de expressões cotidianas, são utilizados por grupos dominantes para que os mesmos se diferenciem dos demais e criem “ares de superioridade cultural”. Ou seja, simplificando, são uns babacas ignorantes que não conhecem o real conceito de cultura. Se dizem “culturais”, mas os mesmos é que estão viciados e dopados da ignorância cultural e da discriminação burra.
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Não são poucos, são muitos mesmo, percebe-se que grande parte das pessoas, principalmente no senso comum e, em grande parte do meio acadêmico, os quais já presenciei e assisti dizerem frases ignorantes tipo como: “ter cultura é ouvir MPB, jazz e blues”. Confesso, sou fã de MPB, amo as músicas do Chico Buarque de Holanda, sou fã de jazz e, há tempos atrás, eu ia quase toda sexta no chorinho da avenida Goiás (19:00 hs) e no jazz do Cine Goiânia Ouro (às 23:00) e, recomendo, mas isso de forma alguma faz eu ser mais “cultural” do que nossos avós e pais, por exemplo, que ouvem o "modão" de viola lá do interior que, os mesmos já ouviam desde que eram crianças.
Considerando, de forma simplificada, que cultura são práticas e expressões no meio social que indivíduos expressam e absorvem em seus estilos de vida, muitas vezes, desde a infância, interagindo com o ambiente em que vivem, junto com as mudanças e inovações sociais que surgem, podemos dizer que pessoas que participaram do imenso êxodo rural e do grande processo de urbanização das últimas décadas que o Brasil passou, incorporaram o estilo urbano em suas raízes do campo e, daí, fomentaram expressões do chamado sertanejo urbano, que muitas pessoas de “altíssimo nível cultural” dizem ser músicas que são “ópio do povo”.
A verdade é, acompanhando algumas pessoas do meio acadêmico, não sei qual o pior ópio, se é “afogar as mágoas” em um sertanejo universitário ou, "afogar as mágoas" na erva danada em show de regue (nada contra regue, gosto de regue mas, exemplifico neste contexto o que já presenciei), criticar o mundo sem melhorá-lo e entornar na bebedeira. Qual a diferença? Portanto, isso só ratifica a ignorância daqueles que se acham “acima da carne seca” mas são verdadeiros poços de ignorância.
Nada contra "curtir os momentos" da forma que quiserem e, afinal, gosto é gosto, e isso, ninguém se discute. O problema é, quando pessoas, na hipocrisia, ouvem certos estilos musicais particularmente e, publicamente demonstram gostar de estilos considerados mais "eruditos", para se apresentarem em estereótipos "culturalizados", ou, gostam de determinados estilos culturais, mas discriminam outros estilos justamente para se vestirem de uma roupagem reconhecida em grande parte do senso comum e acadêmico como "cultas".
Nada contra "curtir os momentos" da forma que quiserem e, afinal, gosto é gosto, e isso, ninguém se discute. O problema é, quando pessoas, na hipocrisia, ouvem certos estilos musicais particularmente e, publicamente demonstram gostar de estilos considerados mais "eruditos", para se apresentarem em estereótipos "culturalizados", ou, gostam de determinados estilos culturais, mas discriminam outros estilos justamente para se vestirem de uma roupagem reconhecida em grande parte do senso comum e acadêmico como "cultas".
Já vi pessoas do meio acadêmico me dizerem em particular que gostam de uma música sertaneja e até curtir show ao vivo (ratifico, já vi mesmo) e, quando está na academia (universidade) a mesma ficar indiferente às modas de viola e até negarem que gostam de sertanejo (fui testemunha ocular), incrível.
Se os brasileiros discriminassem menos suas diferentes culturas entre os estados da federação, poderíamos ter um turismo cultural muito mais abrangente e forte. Muitas pessoas vão ao nordeste, por exemplo, não só por causa da beleza daquela região, mas, um dos motivos principais é, justamente, a cultura fantástica daquele povo, como o artesanato e o forró pé de serra (que, particularmente gosto muito).
Um povo sem identidade e sem memória é um povo sem referencial, manipulado e, muitas vezes, a mídia de massa incentiva as pessoas a discriminarem suas próprias raízes, o que é lamentável. Estas pessoas se atolam no poço da ignorância e querem ser algo que não são, acabam sem identidade e frustradas sem referencial e, cedo ou tarde, muitas voltam para ações sociais segundo suas raízes sem aproveitar e valorizar a identidade de seus ancestrais enquanto estavam iludidas pelos estereótipos culturais ilusórios.
"Puxar x" em um estado seria mais superior do que "puxar o r" ou o "n" em outros estados? Bourdieu diz que não, que os sotaques são expressões simbólicas de identidade. Afinal, apenas "puxar o r" na fonética da palavra porta, por exemplo, não se obtém erro gramatical.
Segundo vários autores antropólogos não existe cultura “superior” ou “inferior”, todas as práticas culturais regionais são expressões de identidade e, cabe o Estado brasileiro preservá-las. Desta forma, não podemos dizer que a cultura dos índios que estão lá no Xingu é inferior às práticas de pessoas que vivem em Nova York pois, os indígenas preservam suas tradições por opção e, possuem suas práticas culturais arraigadas relativamente em outro contexto histórico.
Segundo a Emenda Constitucional nº 48, artigo 1º, § 3º, inciso V, é prevista a fomentação por parte do Estado da "valorização da diversidade étnica e regional". Também, o artigo 215 da Constituição Federal é bem claro quando diz: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. Estas leis supramencionadas são apenas fragmentos de uma vasta legislação que protege o patrimônio cultural imaterial, inclusive, a cultura popular.
Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, cultura é: “ato, efeito ou modo de cultivar. Complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característica de uma sociedade" (p.508)
Eu poderia discorrer uma infinidade de noções básicas tiradas de antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores sobre o conceito de cultura que, só ratifica as noções básicas já supramencionadas, mas creio que, até então não há essa necessidade e, o texto ficaria enorme (muito maior do que já está). Portanto, até aqui creio que seja o suficiente.
Abraço a todos!
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Lisboa, Portugal: Difel, 1998.


Eu mesma digo para os próximos que só ouço Chico Buarque para fins históricos, não curto.As pessoas acreditam que o historiador tem que ser ouvinte apenas de clássicos, e isto não é verdade.Podemos ser não-ecléticos, mas temos que respeitar todos os gostos.Afinal, cultura pode ter características individuais ou coletivas.
ResponderExcluirO Roque de Barros Laraia, é mais acessível ao grande publico que o Bordieu, não achas? O conceito de poder simbólico em P. Bordieu es muito complicado!
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