quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Rua das Rimas (por Guilherme de Almeida).

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço laço e basso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que me mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte indiferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE...

terça-feira, 5 de julho de 2011

O “Leviatã Fiscal”.



 Dizem que o regime de exceção já se passou no Brasil. Talvez, para muitas práticas, tal regime não exista mais. Entretanto, o que se percebe é que, muitos empresários reclamam da alta carga tributária nos “bastidores”, mas, publicamente, no geral e, proporcionalmente, os mesmos aparentam não forçarem protestos mais incisivos contra o governo.

Muitos empresários no Brasil possuem amplas condições de protestarem de forma mais incisiva contra a imensa oneração do Estado brasileiro que ocorre através dos altos impostos, das imensas taxas de juros, da falta de investimento social, da falta de infra-estrutura, medidas as quais sendo efrentadas, podem, inclusive, contribuir em parte para os mesmos se desenvolverem ainda mais economicamente do que já são, e, muitas delas, como o investimento no social, podem ser para o bem estar coletivo. Mas por que os mesmos assim não o fazem?

Bem, talvez muitos marxistas podem dizer que é porque “a classe burguesa não está nem aí para o social”, que muitos querem mesmo a “desigualdade social para uma elite manipular o poder”. Bem, tais afirmações não deixam de serem plausíveis em grande parte. Afinal, todos nós sabemos que há as práticas dos famosos “coronéis”, sobretudo no norte e nordeste, que aproveitam a miséria dos outros para se perpetuarem no poder.

Entretanto, como já foi supramencionado, grande parte da intervenção do Estado nas altas taxas de juros, elevada carga tributária e a pouca ação do mesmo para a otimização social e da infra-estrutura no Brasil prejudica de forma peremptória os próprios empresários e, sobretudo os grandes. Então, por que os empresários (principalmente os maiores) não protestam, de forma mais incisiva, contra pelo menos os altos impostos que prejudicam eles mesmos? Grandes empresários, por exemplo, possuem poderes financeiros para realizarem grandes mobilizações, podem criar sites de protesto, fundar “ONGs para manifestações práticas contra abusos fiscais”, contra os altos impostos, podem reunir-se com “cartas de protestos e de repúdio”, de forma constante. Entretanto, o máximo que se vê, são reuniões feitas de vez em quando, afirmações evasivas e chavões em entrevistas com reclamações dos problemas supracitados.

Todavia, observa-se que grande parte destes empresários possuem “medo” de insurgirem e reclamarem dos altos impostos, elevadas taxas de juros e alta carga tributária, porque, uma parcela dos mesmos, recebem benefícios do próprio governo via BNDS, BB, CAIXA, fundos regionais de investimentos bancados pelo setor público, PPP (Parcerias Público e Privada), incentivos fiscais, dentre outras várias benesses paradoxalmente concedidas pelo Estado às “empresas capitalistas”.

A operação entre os grupos Carrefour e Pão de Açúcar, defendida pelo próprio governo, com financiamento público do BNDS é um exemplo clássico.

Em plena ameaça de esboço de inflação no Brasil, o governo Dilma quer justamente incentivar oligopólios (diga monopólio se quiser) de grupo supermercadista (mercado o qual abrange também a classe de baixa renda), diminuindo a concorrência, ação que pode ainda mais elevar os preços de produtos como alimentos nas prateleiras dos supermercados e, até ofuscar o crescimento das pequenas e médias empresas devido a disputa desleal com grandes grupos comerciais de varejo.

Mesmo com um temor coletivo de volta da inflação, o governo ainda não baixou impostos (que incide sobre o valor dos produtos), mesmo assim, muitos empresários refutam em serem mais incisivos nas críticas ao governo. Seria medo de não continuarem recebendo as benesses do Estado?

Observa-se um medo do empresariado brasileiro a uma espécie de “Leviatã Fiscal”, não há nenhum anacronismo ao tal personagem relatado por Hobbes pois, o “monstro” supracitado aqui, possui nome composto e,  percebe-se uma espécie de “terror”,  “pavor” e “medo” de parte do empresariado em não conseguir as benesses do Estado, caso os mesmos sejam incisivos demais em protestos e reclamações contra, por exemplo, a alta carga tributária.

sábado, 25 de junho de 2011

A Vaidade Cultural com o Nariz Empinado no Teto da Ignorância, e da Tolice.


Infelizmente para muitas pessoas ignorantes (e não são poucas), tanto no senso comum, como no meio acadêmico, o conceito de cultura, em relação a muitos antropólogos e sociólogos é visto de forma totalmente equivocada. Afinal, segundo a antropologia e a sociologia o que é cultura? Bem, não quero aqui discorrer algo que daria folhas e folhas inimagináveis de dissertação, mas o que proponho é apenas citar algumas noções básicas do conceito de cultura segundo alguns antropólogos, sociólogos e até da legislação federal do Brasil.

Para Edward Tylor (1871), cultura é “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.

Segundo grande parte dos estudos antropológicos, em resumo, cultura abrange as ações e práticas de um indivíduo no ambiente em que ele vive ou viveu, estas ações, estariam incrustadas e intrinsecamente ligadas a memória coletiva de um determinado grupo, no qual toda esta dinâmica geraria expressões de identidade e, caracterizaria determinado grupo social.

Para o sociólogo Pierre Bourdieu (que me influenciou bastante no conceito de cultura), a identidade de um indivíduo está ligada a símbolos que o representa, estes símbolos podem estar nas vestimentas, comidas típicas, músicas e até, segundo Bourdieu, em sotaques de um determinado grupo ou povo.

As relações humanas possuem uma ênfase sociológica de idéias entrepostas, esta iteratividade social pode fazer com que grupos, de forma coletiva, interajam com o ambiente em que vivem e interfiram no mesmo. Esta interação gera as práticas sociais que, podem ser consolidadas como expressões culturais. Tudo isso depende do reconhecimento local do grupo precursor de determinadas ações que, são reconhecidas como parte da cultura local pelos mesmos e, para Bourdieu, essas expressões culturais e identitárias locais, devem também serem reconhecidas por outros grupos sociais.

Os símbolos determinam muitas vezes a nacionalidade ou o bairrismo de pessoas que nasceram em regiões separadas por um rio por exemplo (Bourdieu:1998:112).

Para Bourdieu os símbolos podem ser usados por um grupo dominante, são objetos que podem ser como "armas", em uma luta simbólica que firmam características de reconhecimento que produz uma certa mobilização social (Bourdieu, 1998 p. 120). Para ele também “[...]a procura dos critérios ‹‹objetos›› de identidade ‹‹regional›› ou ‹‹étnica›› não deve fazer esquecer que, na prática social , estes critérios (por exemplo, a língua, o dialeto e o sotaque) são objeto de representações mentais, quer dizer, de atos de percepção e de apreciação, de conhecimento e de reconhecimento em que os agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos , e de representações em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou em atos, estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores[...]”. (Bourdieu, 1998, p. 112, grifo do autor).

De forma simplificada e didática, para Bourdieu, existem determinados grupos que criam uma estética cultural estereotipada, que possuem intenção de estarem em ares de superioridade, sejam elas culturais como: da moda, musicais, etc. Assim, as marcas de roupas, por exemplo, as músicas consideradas “culturais” e outros estereótipos de expressões cotidianas, são utilizados por grupos dominantes para que os mesmos se diferenciem dos demais e criem “ares de superioridade cultural”. Ou seja, simplificando, são uns babacas ignorantes que não conhecem o real conceito de cultura. Se dizem “culturais”, mas os mesmos é que estão viciados e dopados da ignorância cultural e da discriminação burra.
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Não são poucos, são muitos mesmo, percebe-se que grande parte das pessoas, principalmente no senso comum e, em grande parte do meio acadêmico, os quais já presenciei e assisti dizerem frases ignorantes tipo como: “ter cultura é ouvir MPB, jazz e blues”. Confesso, sou fã de MPB, amo as músicas do Chico Buarque de Holanda, sou fã de jazz e, há tempos atrás, eu ia quase toda sexta no chorinho da avenida Goiás (19:00 hs) e no jazz do Cine Goiânia Ouro (às 23:00) e, recomendo, mas isso de forma alguma faz eu ser mais “cultural” do que nossos avós e pais, por exemplo, que ouvem o "modão" de viola lá do interior que, os mesmos já ouviam desde que eram  crianças.

Considerando, de forma simplificada, que cultura são práticas e expressões no meio social que indivíduos expressam e absorvem em seus estilos de vida, muitas vezes, desde a infância, interagindo com o ambiente em que vivem, junto com as mudanças e inovações sociais que surgem, podemos dizer que pessoas que participaram do imenso êxodo rural e do grande processo de urbanização das últimas décadas que o Brasil passou, incorporaram o estilo urbano em suas raízes do campo e, daí, fomentaram expressões do chamado sertanejo urbano, que muitas pessoas de “altíssimo nível cultural” dizem ser músicas que são “ópio do povo”.

A verdade é, acompanhando algumas pessoas do meio acadêmico, não sei qual o pior ópio, se é “afogar as mágoas” em um sertanejo universitário ou, "afogar as mágoas" na erva danada em show de regue (nada contra regue, gosto de regue mas, exemplifico neste contexto o que já presenciei), criticar o mundo sem melhorá-lo e entornar na bebedeira. Qual a diferença? Portanto, isso só ratifica a ignorância daqueles que se acham “acima da carne seca” mas são verdadeiros poços de ignorância.


Nada contra "curtir os momentos" da forma que quiserem e, afinal, gosto é gosto, e isso, ninguém se discute. O problema é, quando pessoas, na hipocrisia, ouvem certos estilos musicais particularmente e, publicamente demonstram gostar de estilos considerados mais "eruditos", para se apresentarem em estereótipos "culturalizados", ou, gostam de determinados estilos culturais, mas discriminam outros estilos justamente para se vestirem de uma roupagem reconhecida em grande parte do senso comum e acadêmico como "cultas".

Já vi pessoas do meio acadêmico me dizerem em particular que gostam de uma música sertaneja e até curtir  show ao vivo (ratifico, já vi mesmo) e, quando está na academia (universidade) a mesma ficar indiferente às modas de viola e até negarem que gostam de sertanejo (fui testemunha ocular), incrível.

Se os brasileiros discriminassem menos suas diferentes culturas entre os estados da federação, poderíamos ter um turismo cultural muito mais abrangente e forte. Muitas pessoas vão ao nordeste, por exemplo, não só por causa da beleza daquela região, mas, um dos motivos principais é, justamente, a cultura fantástica daquele povo, como o artesanato e o forró pé de serra (que, particularmente gosto muito).  

Um povo sem identidade e sem memória é um povo sem referencial, manipulado e, muitas vezes, a mídia de massa incentiva as pessoas a discriminarem suas próprias raízes, o que é lamentável. Estas pessoas se atolam no poço da ignorância e querem ser algo que não são, acabam sem identidade e frustradas sem referencial e, cedo ou tarde, muitas voltam para ações sociais segundo suas raízes sem aproveitar e valorizar a identidade de seus ancestrais enquanto estavam iludidas pelos estereótipos culturais ilusórios.

"Puxar x" em um estado seria mais superior do que "puxar o r" ou o "n" em outros estados? Bourdieu diz que não, que os sotaques são expressões simbólicas de identidade. Afinal, apenas "puxar o r" na fonética da palavra porta, por exemplo, não se obtém erro gramatical. 

Segundo vários autores antropólogos não existe cultura “superior” ou “inferior”, todas as práticas culturais regionais são expressões de identidade e, cabe o Estado brasileiro preservá-las. Desta forma, não podemos dizer que a cultura dos índios que estão lá no Xingu é inferior às práticas de pessoas que vivem em Nova York pois, os indígenas preservam suas tradições por opção e, possuem suas práticas culturais arraigadas relativamente em outro contexto histórico.

Segundo a Emenda Constitucional nº 48, artigo 1º, § 3º, inciso V, é  prevista a fomentação por parte do Estado da  "valorização da diversidade étnica e regional". Também, o artigo 215 da Constituição Federal é bem claro quando diz: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. Estas leis supramencionadas são apenas fragmentos de uma vasta legislação que protege o patrimônio cultural imaterial, inclusive, a cultura popular.

Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, cultura é: “ato, efeito ou modo de cultivar. Complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característica de uma sociedade" (p.508)

Eu poderia discorrer uma infinidade de noções básicas tiradas de antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores sobre o conceito de cultura que, só ratifica as noções básicas já supramencionadas, mas creio que, até então não há essa necessidade e, o texto ficaria enorme (muito maior do que já está). Portanto, até aqui creio que seja o suficiente. 

Abraço a todos!      
       


BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Lisboa, Portugal: Difel, 1998.

       

domingo, 12 de junho de 2011

Diário de um Esquerdinha.

Desde a faculdade as pessoas me perguntavam se politicamente eu era de “esquerda” ou de “direita”. Em um texto que postei neste blog que se chama “O Paradoxo Ideológico e Partidário no Brasil” eu exponho minhas colocações sobre o que penso disso tudo e, já que não tenho vínculos políticos com ninguém, postarei aqui um diário pseudônimo do que já vi sobre alguns (não todos) esquerdinhas por aí.

“Olá, meu nome é Disney, minha mãe me deu este nome porque meu irmão mais velho, quando era criança,  gostava muito de passear no parque do Mickey Mouse nos EUA.

Meu irmão se chama York (só que o motivo deste nome é uma outra história e, não cabe aqui relatá-la), ele já é advogado bem sucedido, ganha muito dinheiro, mas formou-se em uma universidade particular. Eu? Bem, vou contar-lhes resumidamente minha história.

Estudei nos melhores colégios de classe média alta que há na minha cidade, fazia bagunça, mas, sinceramente, nunca gostei de estudar e, quando fui prestar vestibular, eu quis ser "chique" e ter um status maior que meu irmão, e prestei em uma universidade federal para o curso de história. Eu havia tentado outros cursos como direito, jornalismo e até medicina nas federais, mas vi que era muito difícil e, como sempre gostei de política, economia e história, prestei para história.

Na faculdade eu achava muito bonito me engajar pelas causas sociais, os partidos de esquerda possuem um discurso lindo em pró do social, entretanto, eu não abria mão de frequentar os melhores bares e boates da cidade nos finais de semana. Também, não abria mão de viajar para a Disney nas férias quando eu queria, mesmo eu sendo um crítico ferrenho do capitalismo.

Eu me sentia muito mal na faculdade federal por ter vindo de classe média alta e estudar ao lado de estudantes que vieram de escolas públicas. Aqueles pé-rapados, se sentem os intelectuais mas não estudaram em colégios bons como os que estudei, mesmo assim, podem ter mais sucesso na vida do que eu, por isso, eu os desprezava, os discriminava e, me engajava nas causas sociais para parecer-me um idealista perante a sociedade. Não estudava, vivia no DCE e no DA com outros que tinham mais razão para lutar contra as  desigualdades do que eu, mas eu fazia tudo por estas causas e pelo povo. Me sentia melhor do que que outros companheiros de sala que não estudavam porque tinham que trabalhar, além de eu ter uma justificativa para os meus primos ricos de estar ali por ser um idealista.

Também criei raiva dos médicos, engenheiros, advogados e todos aqueles representantes da “classe burguesa”. Só do meu pai que é um empresário industrial falido que não tenho raiva, porque ele é meu pai e, quando ainda seu negócio ia bem, o mesmo me passava a mesada no final do mês para eu continuar lutando pela causa proletária.

Quando eu pensei que eu estava lascado financeiramente (já estava com vergonha do meu irmão que já era milionário) e,  já adulto, ainda não havia me formado. Então, surgiu uma luz no fim do túnel, me filiei a um partido de esquerda, passei então a me engajar mais fortemente na causa operária, tudo pelo povo e, acabei virando sindicalista.

Como líder sindical minha vida melhorou bastante, eu já andava de carro do ano, depois veio os carros importados e, daí para me tornar deputado federal e prefeito da minha cidade foi um pulo.

Posteriormente, passei a investir no mercado de capitais, hoje sou um governista convicto e, meus companheiros vivem muito bem.

Ah! E o povo? E os proletários? Ainda continuo na causa por eles.”

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Sonho Azul de Dom Bosco (Homenagem a Goiânia).

Como goianiense, eu não poderia deixar de homenagear a cidade que eu tanto amo. Para isso, posto aqui uma homenagem que o escritor Mario Prata fez a Goiânia, através de uma crônica, logo depois que ele passou pela capital em 1999.
A crônica de Prata foi publicada no jornal O Estado de São Paulo em 27/10/1999. A homenagem de Mário foi tão bem feita que, percebe-se exageros. Todavia, um carioca do meu antigo trabalho, que leu a crônica, me disse uma vez que, nunca tinha visto "uma homenagem tão bela" em forma de crônica a uma cidade como esta de Prata.
Só para "registro", textos dos livros de Mario Prata já foram publicados em diversas provas de vestibulares do país, Prata escreveu para jornais como O Estado de São Paulo, foi colunista durante vários anos da Revista Época, escreveu novelas para a Rede Globo, etc.

Prata, relatou a seguinte crônica depois que passou por Goiânia em 1999.
Observação: A crônica foi escrita em um contexto de dez anos atrás. Entretanto, apesar dos exageros e, do encanto de Prata pela cidade, a homenagem como um todo não deixa de ser bela.


O SONHO AZUL DE DOM BOSCO.

Por Mario Prata.



"Lá embaixo, aquele verde misturado com as nuvens brancas dá um certo azul, visto lá da janelinha do avião. Quando Gagarin disse isso, em 61, o mundo ficou boquiaberto: a Terra é azul! Depois vieram as fotos e o poema russo esvaiu-se com o ar poluído do fim de século.
Foi pensando no Gagarin e em São João Bosco que eu aterrissei no Planalto Central. Antes de Gagarin, há uns 150 anos, o criador dos salesianos, o tal Bosco, teve um sonho: no centro do Brasil surgiria uma cidade, a cidade do futuro. Uma cidade azul, imaginava eu, ainda moleque. Ao Planalto Central cheguei e dormi. E, apesar de não viajar pelo espaço sideral e nem ser santo, sonhei.
Sonhei que as ruas da minha cidade não tinham calombinhos, nem buracos. Que as calçadas eram bem-feitas e bonitas. E pessoas passeavam o dia inteiro por elas. Indo e vindo, como reza a Constituição. No centro das alamedas e das avenidas, coqueiros rodeados de canteiros multicoloridos. Bem-arranjados e bem cuidados. E cheirosos. Coisa de sonho mesmo, lúdico e utópico.
Sonhei que o prefeito da cidade tinha um computador na sala dele onde cuidava dos seus cidadãos, a toque de indicador. Achava um bairro, uma rua, uma casa e dizia: aqui tem um tuberculoso, que se trata no hospital tal, e tem consulta amanhã. Só em sonho mesmo.

E no sonho não tinha crianças analfabetas e todos gostavam de ler. Sonhei que o secretário da Cultura daquele Estado era um poeta e dava dinheiro para o cinema (...).
No sonho, os promotores eram todos jovens e tinham pouca gente para acusar. A criminalidade no meu sonho era bem baixa.
Sonhei que ali as pessoas viviam felizes como numa vila nova. E lá os ônibus eram azuis como os olhos de Gagarin.

E só fui acordar de noite, numa praça chamada Cívica, onde um jovem maestro cabeludo tocava Ravel, Tchaikovski e uma multidão de pessoas ouvia e aplaudia. Era aniversário daquela cidade que eu sonhava. A cidade era uma menina que fazia 66 anos.
E, no meio da multidão, o prefeito andava com segurança (e sem segurança) no meio do povo.
E, no auge da sinfonia russa, uma festa de rojões e luzes e pirotecnia invadia o espaço. E o povo gritava, feliz:
- Viva Goiânia! Viva Goiânia!
É, eu estava lá no meio do povo. Eu e o Mateus Shirts, que apareceu no sonho, para ouvir uma mulher dizer para ele - e sabe-se lá por que: a coisa mais bonita do mundo é o Estado e a prefeitura trabalharem juntos. Eu e o Mateus não sabemos por que ela nos disse aquilo.
E aí - e já não era mais sonho - uma garotinha goianiense, ouvindo o Guarani de Carlos Gomes e olhando os fogos explodindo lá em cima, perguntou para o pai dela:
- É Deus, pai? É Deus que está fazendo isso?
Não, menina, não era Deus, não. Era o povo mesmo, era o cidadão lá do Brasil Central.
Que me desculpe o Juscelino e todos aqueles que hoje moram - e mamam - em Brasília, mas quando o meu querido São João Bosco, sonhou com uma cidade do futuro no interior do Brasil, foi com Brasília, não. O buraco era um pouco mais embaixo.
Pra ser mais exato, 202 quilômetros pra baixo.
A cidade azul do dom Bosco, o mundo azul do Gagarin, chama-se Goiânia. Uma cidade onde os ricos emergentes não latem. Nem mordem.

Tá duvidando? Vai lá, vai.
O duro é voltar para São Paulo, esta unha encravada e desgovernada há tanto tempo, que continua se achando culta e civilizada".
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo 27/10/1999

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Sentido da Vida.

Afinal, qual é o sentido da vida? Por que vivemos? Essa é uma indagação feita por muitas pessoas.

Na moral cristã e de outras religiões existem respostas baseadas em propósitos que há para cada um de nós, nos quais Deus traçou nossos caminhos, estes devem ser percorridos para um propósito maior nos planos do Criador.

Particularmente, por eu ser cristão creio nos parâmetros do cristianismo para o sentido da vida e, prefiro não relatá-los especificamente, pois o sentido que descrevo aqui é de um ponto de vista que não abrange necessariamente aspectos religiosos, de crença ou dogmáticos (pelo menos vou tentar, pois sei que é difícil desvincular estas questões).
Sabemos que todos nós estamos suscetíveis a voltarmos para o pó, sermos cremados, etc. A qualquer momento podemos passar dessa pra melhor sem sabermos como, onde e porque e, pergunto: Qual é o sentido de vivermos neste mundo?

Também não quero estender essas indagações para como pensamos ou sentimos de forma subjetiva dentro de nós quando respondemos as reações daquilo que é concreto do lado “externo” do nosso corpo e, se estas reações aparentemente subjetivas (que nem a ciência consegue desvendar totalmente), se perdem ou não quando “batemos as botas”. Pois, se formos discorrermos sobre isso, podemos perder o foco e abrangeria folhas e folhas inimagináveis de pesquisas e, provavelmente, não se encontrariam respostas.

A indagação em si é simples, nada mais nada menos é querer saber o por que vivemos, o porque existimos, trabalhamos, comemos, temos momentos de lazer, filhos, namoramos, casamos, envelhecemos e depois morremos. Pra que? Por quê?

Pensando nestas questões percebi que o sentido de tudo isso está justamente em perpetuarmos o que podemos oferecer de bom para posteriori, deixarmos bons exemplos aos outros, educar bem a prole e fazer com que a mesma eduque bem nossos netos.

Existem no planeta pessoas que ainda vivem com bons exemplos, que inspiram as outras, mesmo quando passaram "dessa para melhor" (e isso, não tem nada a ver com religião e, muito menos com reencarnação).

Podemos “ir”, mas os bons exemplos podem "ficar" e se perpetuarem, se espalharem, no mínimo, nos ambientes que vivemos, não que sejamos perfeitos, entretanto, até nas imperfeições podemos deixar o exemplo da humildade e do reconhecimento de nossas falhas. Tudo isso, em uma linearidade coletiva, que se iniciou a milhares de anos e, provavelmente, durara por muito tempo, mesmo depois de nossa morte, se não houver alguma interceptação.

Portanto, eis o que se percebe como o sentido da vida, deixe algo de bom para outro, deixe com que essa linearidade coletiva seja boa, faça o bem, eduque corretamente seus filhos, viva bem, goze do que há na natureza de forma responsável e ética, para que os bons exemplos se perpetuem de forma positiva mesmo depois que formos "dessa pra melhor"  e, talvez, tenha encontrado algum sentido em meio a tantas indagações humanas.








sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Verdadeira Amizade.


A amizade em grande parte é algo inocente. Quando consideramos alguém como amigo, muitas vezes não nos damos conta se a nossa sinceridade ofende o outro ou não. Muitos não conhecem um dos provérbios de Salomão que diz que: “É melhor uma repreensão franca do que uma amizade fingida” (Prov. 27.5).

Percebe-se que a amizade deva acompanhar a maturidade. O egoísmo jamais deve sobrepô-la, pois, caso isso aconteça, não se ratifica a reciprocidade de um amigo.

Gosto muito da letra da música da cantora Ludimila Ferber que diz: “Amigos se faz/ Em tempos de paz/ Mas na angústia é que se prova o seu valor/ Amigo se é, na glória e na dor/ Quem é amigo suporta e crer/ Quem é amigo é fiel até o fim”.

Na amizade treinamos nosso caráter, nossa personalidade e, muitas vezes temos que nos moldar. Não devemos dizer isso “para não ofender o outro”, suportamos aquela música que o amigo gosta e detestamos, somos tolerantes a empolgação do cidadão, compreendemos quando o sujeito não tem tempo de jogar bola, etc. Isso ajuda em muitos casos a melhorarmos como pessoa.

Saber ceder em uma amizade não significa que você vá entregar todo o seu tempo ao outro, ou, vá fazer tudo para o mesmo(a), mas, perceberá se há a reciprocidade de outrem e, verá se toda essa dinâmica está te fazendo bem. Caso contrário, talvez seja bom repensar se realmente sua consideração a uma determinada pessoa deva continuar, ou ser “suspensa” e, talvez, simplesmente cancelada para não prejudicar a si mesmo. Até porque existem pessoas que não sabem ceder que, quando vêem seu sucesso por exemplo, simplesmente se afastam ou sentem medo de ti, buscam uma “proteção” de seu “status quo” próprio no meio social quando a mesma está perto de você. Assim, o afastamento, a indiferença, a rejeição pode substituir a amizade e, talvez seja um “remédio” para a mesma se "sentir melhor".

Percebe-se tais ações como lamentáveis e, isso faz com que, muitas vezes haja pena de protagonistas de certas atitudes supracitadas. São pessoas que precisam mais de Deus. Em muitos casos, não as vejo como “más”, e sim como “vítimas” de seus próprios egos que, talvez foram fomentados por elas mesmas ou por outros em sua volta.

Continuando a música da Ludimila Ferber: “Se precisar de um amigo/ Olha pra dentro de mim/ Podes errar/ E magoar/ Mas estou aqui pra te ajudar/ Sou teu amigo até o fim.”

Abraço a todos!