terça-feira, 7 de junho de 2011

O Sonho Azul de Dom Bosco (Homenagem a Goiânia).

Como goianiense, eu não poderia deixar de homenagear a cidade que eu tanto amo. Para isso, posto aqui uma homenagem que o escritor Mario Prata fez a Goiânia, através de uma crônica, logo depois que ele passou pela capital em 1999.
A crônica de Prata foi publicada no jornal O Estado de São Paulo em 27/10/1999. A homenagem de Mário foi tão bem feita que, percebe-se exageros. Todavia, um carioca do meu antigo trabalho, que leu a crônica, me disse uma vez que, nunca tinha visto "uma homenagem tão bela" em forma de crônica a uma cidade como esta de Prata.
Só para "registro", textos dos livros de Mario Prata já foram publicados em diversas provas de vestibulares do país, Prata escreveu para jornais como O Estado de São Paulo, foi colunista durante vários anos da Revista Época, escreveu novelas para a Rede Globo, etc.

Prata, relatou a seguinte crônica depois que passou por Goiânia em 1999.
Observação: A crônica foi escrita em um contexto de dez anos atrás. Entretanto, apesar dos exageros e, do encanto de Prata pela cidade, a homenagem como um todo não deixa de ser bela.


O SONHO AZUL DE DOM BOSCO.

Por Mario Prata.



"Lá embaixo, aquele verde misturado com as nuvens brancas dá um certo azul, visto lá da janelinha do avião. Quando Gagarin disse isso, em 61, o mundo ficou boquiaberto: a Terra é azul! Depois vieram as fotos e o poema russo esvaiu-se com o ar poluído do fim de século.
Foi pensando no Gagarin e em São João Bosco que eu aterrissei no Planalto Central. Antes de Gagarin, há uns 150 anos, o criador dos salesianos, o tal Bosco, teve um sonho: no centro do Brasil surgiria uma cidade, a cidade do futuro. Uma cidade azul, imaginava eu, ainda moleque. Ao Planalto Central cheguei e dormi. E, apesar de não viajar pelo espaço sideral e nem ser santo, sonhei.
Sonhei que as ruas da minha cidade não tinham calombinhos, nem buracos. Que as calçadas eram bem-feitas e bonitas. E pessoas passeavam o dia inteiro por elas. Indo e vindo, como reza a Constituição. No centro das alamedas e das avenidas, coqueiros rodeados de canteiros multicoloridos. Bem-arranjados e bem cuidados. E cheirosos. Coisa de sonho mesmo, lúdico e utópico.
Sonhei que o prefeito da cidade tinha um computador na sala dele onde cuidava dos seus cidadãos, a toque de indicador. Achava um bairro, uma rua, uma casa e dizia: aqui tem um tuberculoso, que se trata no hospital tal, e tem consulta amanhã. Só em sonho mesmo.

E no sonho não tinha crianças analfabetas e todos gostavam de ler. Sonhei que o secretário da Cultura daquele Estado era um poeta e dava dinheiro para o cinema (...).
No sonho, os promotores eram todos jovens e tinham pouca gente para acusar. A criminalidade no meu sonho era bem baixa.
Sonhei que ali as pessoas viviam felizes como numa vila nova. E lá os ônibus eram azuis como os olhos de Gagarin.

E só fui acordar de noite, numa praça chamada Cívica, onde um jovem maestro cabeludo tocava Ravel, Tchaikovski e uma multidão de pessoas ouvia e aplaudia. Era aniversário daquela cidade que eu sonhava. A cidade era uma menina que fazia 66 anos.
E, no meio da multidão, o prefeito andava com segurança (e sem segurança) no meio do povo.
E, no auge da sinfonia russa, uma festa de rojões e luzes e pirotecnia invadia o espaço. E o povo gritava, feliz:
- Viva Goiânia! Viva Goiânia!
É, eu estava lá no meio do povo. Eu e o Mateus Shirts, que apareceu no sonho, para ouvir uma mulher dizer para ele - e sabe-se lá por que: a coisa mais bonita do mundo é o Estado e a prefeitura trabalharem juntos. Eu e o Mateus não sabemos por que ela nos disse aquilo.
E aí - e já não era mais sonho - uma garotinha goianiense, ouvindo o Guarani de Carlos Gomes e olhando os fogos explodindo lá em cima, perguntou para o pai dela:
- É Deus, pai? É Deus que está fazendo isso?
Não, menina, não era Deus, não. Era o povo mesmo, era o cidadão lá do Brasil Central.
Que me desculpe o Juscelino e todos aqueles que hoje moram - e mamam - em Brasília, mas quando o meu querido São João Bosco, sonhou com uma cidade do futuro no interior do Brasil, foi com Brasília, não. O buraco era um pouco mais embaixo.
Pra ser mais exato, 202 quilômetros pra baixo.
A cidade azul do dom Bosco, o mundo azul do Gagarin, chama-se Goiânia. Uma cidade onde os ricos emergentes não latem. Nem mordem.

Tá duvidando? Vai lá, vai.
O duro é voltar para São Paulo, esta unha encravada e desgovernada há tanto tempo, que continua se achando culta e civilizada".
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo 27/10/1999

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