Como goianiense, eu não poderia deixar de homenagear a cidade que eu tanto amo. Para isso, posto aqui uma homenagem que o escritor Mario Prata fez a Goiânia, através de uma crônica, logo depois que ele passou pela capital em 1999.A crônica de Prata foi publicada no jornal O Estado de São Paulo em 27/10/1999. A homenagem de Mário foi tão bem feita que, percebe-se exageros. Todavia, um carioca do meu antigo trabalho, que leu a crônica, me disse uma vez que, nunca tinha visto "uma homenagem tão bela" em forma de crônica a uma cidade como esta de Prata.
Só para "registro", textos dos livros de Mario Prata já foram publicados em diversas provas de vestibulares do país, Prata escreveu para jornais como O Estado de São Paulo, foi colunista durante vários anos da Revista Época, escreveu novelas para a Rede Globo, etc.
Prata, relatou a seguinte crônica depois que passou por Goiânia em 1999.
Observação: A crônica foi escrita em um contexto de dez anos atrás. Entretanto, apesar dos exageros e, do encanto de Prata pela cidade, a homenagem como um todo não deixa de ser bela.
Observação: A crônica foi escrita em um contexto de dez anos atrás. Entretanto, apesar dos exageros e, do encanto de Prata pela cidade, a homenagem como um todo não deixa de ser bela.
O SONHO AZUL DE DOM BOSCO.
"Lá embaixo, aquele verde misturado com as nuvens brancas dá um certo azul, visto lá da janelinha do avião. Quando Gagarin disse isso, em 61, o mundo ficou boquiaberto: a Terra é azul! Depois vieram as fotos e o poema russo esvaiu-se com o ar poluído do fim de século.
Foi pensando no Gagarin e em São João Bosco que eu aterrissei no Planalto Central. Antes de Gagarin, há uns 150 anos, o criador dos salesianos, o tal Bosco, teve um sonho: no centro do Brasil surgiria uma cidade, a cidade do futuro. Uma cidade azul, imaginava eu, ainda moleque. Ao Planalto Central cheguei e dormi. E, apesar de não viajar pelo espaço sideral e nem ser santo, sonhei.
Sonhei que as ruas da minha cidade não tinham calombinhos, nem buracos. Que as calçada
s eram bem-feitas e bonitas. E pessoas passeavam o dia inteiro por elas. Indo e vindo, como reza a Constituição. No centro das alamedas e das avenidas, coqueiros rodeados de canteiros multicoloridos. Bem-arranjados e bem cuidados. E cheirosos. Coisa de sonho mesmo
, lúdico e utópico.
s eram bem-feitas e bonitas. E pessoas passeavam o dia inteiro por elas. Indo e vindo, como reza a Constituição. No centro das alamedas e das avenidas, coqueiros rodeados de canteiros multicoloridos. Bem-arranjados e bem cuidados. E cheirosos. Coisa de sonho mesmo
, lúdico e utópico.Sonhei que o prefeito da cidade tinha um computador na sala dele onde cuidava dos seus cidadãos, a toque de indicador. Achava um bairro, uma rua, uma casa e dizia: aqui tem um tuberculoso, que se trata no hospital tal, e tem consulta amanhã. Só em sonho mesmo.
E no sonho não tinha crianças analfabetas e todos gostavam de ler. Sonhei que o secretá
rio da Cultura daquele Estado era um poeta e dava dinheiro para o cinema (...).No sonho, os promotores eram todos jovens e tinham pouca gente para acusar. A criminalidade no meu sonho era bem baixa.
Sonhei que ali as pessoas viviam felizes como numa vila nova. E lá os ônibus eram azuis como os olhos de Gagarin.
E só fui acordar de noite, numa praça chamada Cívica, onde um jovem maestro cabeludo tocava Ravel, Tchaikovski e uma multidão de pessoas ouvia e aplaudia. Era aniversário daquela cidade que eu sonhava. A cidade era uma menina que fazia 66 anos.
E, no meio da multidão, o prefeito andava com segurança (e sem segurança) no meio do povo.
E, no auge da sinfonia russa, uma festa de rojões e luzes e pirotecnia invadia o espaço. E o povo gritava, feliz:
- Viva Goiânia! Viva Goiânia!
É, eu estava lá no meio do povo. Eu e o Mateus Shirts, que apareceu no sonho, para ouvir uma mulher dizer para ele - e sabe-se lá por que: a coisa mais bonita do mundo é o Estado e a prefeitura trabalharem juntos. Eu e o Mateus não sabemos por que ela nos disse aquilo.E aí - e já não era mais sonho - uma garotinha goianiense, ouvindo o Guarani de Carlos Gomes e olhando os fogos explodindo lá em cima, perguntou para o pai dela:
- É Deus, pai? É Deus que está fazendo isso?
Que me desculpe o Juscelino e todos aqueles que hoje moram - e mamam - em Brasília, mas quando o meu querido São João Bosco, sonhou com uma cidade do futuro no interior do Brasil, foi com Brasília, não. O buraco era um pouco mais embaixo.
Pra ser mais exato, 202 quilômetros pra baixo.
A cidade azul do dom Bosco, o mundo azul do Gagarin, chama-se Goiânia. Uma cidade onde os ricos emergentes não latem. Nem mordem.
Tá duvidando? Vai lá, vai.
O duro é voltar para São Paulo, esta unha encravada e desgovernada há tanto tempo, que continua se achando culta e civilizada".
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo 27/10/1999


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