sábado, 25 de junho de 2011

A Vaidade Cultural com o Nariz Empinado no Teto da Ignorância, e da Tolice.


Infelizmente para muitas pessoas ignorantes (e não são poucas), tanto no senso comum, como no meio acadêmico, o conceito de cultura, em relação a muitos antropólogos e sociólogos é visto de forma totalmente equivocada. Afinal, segundo a antropologia e a sociologia o que é cultura? Bem, não quero aqui discorrer algo que daria folhas e folhas inimagináveis de dissertação, mas o que proponho é apenas citar algumas noções básicas do conceito de cultura segundo alguns antropólogos, sociólogos e até da legislação federal do Brasil.

Para Edward Tylor (1871), cultura é “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.

Segundo grande parte dos estudos antropológicos, em resumo, cultura abrange as ações e práticas de um indivíduo no ambiente em que ele vive ou viveu, estas ações, estariam incrustadas e intrinsecamente ligadas a memória coletiva de um determinado grupo, no qual toda esta dinâmica geraria expressões de identidade e, caracterizaria determinado grupo social.

Para o sociólogo Pierre Bourdieu (que me influenciou bastante no conceito de cultura), a identidade de um indivíduo está ligada a símbolos que o representa, estes símbolos podem estar nas vestimentas, comidas típicas, músicas e até, segundo Bourdieu, em sotaques de um determinado grupo ou povo.

As relações humanas possuem uma ênfase sociológica de idéias entrepostas, esta iteratividade social pode fazer com que grupos, de forma coletiva, interajam com o ambiente em que vivem e interfiram no mesmo. Esta interação gera as práticas sociais que, podem ser consolidadas como expressões culturais. Tudo isso depende do reconhecimento local do grupo precursor de determinadas ações que, são reconhecidas como parte da cultura local pelos mesmos e, para Bourdieu, essas expressões culturais e identitárias locais, devem também serem reconhecidas por outros grupos sociais.

Os símbolos determinam muitas vezes a nacionalidade ou o bairrismo de pessoas que nasceram em regiões separadas por um rio por exemplo (Bourdieu:1998:112).

Para Bourdieu os símbolos podem ser usados por um grupo dominante, são objetos que podem ser como "armas", em uma luta simbólica que firmam características de reconhecimento que produz uma certa mobilização social (Bourdieu, 1998 p. 120). Para ele também “[...]a procura dos critérios ‹‹objetos›› de identidade ‹‹regional›› ou ‹‹étnica›› não deve fazer esquecer que, na prática social , estes critérios (por exemplo, a língua, o dialeto e o sotaque) são objeto de representações mentais, quer dizer, de atos de percepção e de apreciação, de conhecimento e de reconhecimento em que os agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos , e de representações em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou em atos, estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores[...]”. (Bourdieu, 1998, p. 112, grifo do autor).

De forma simplificada e didática, para Bourdieu, existem determinados grupos que criam uma estética cultural estereotipada, que possuem intenção de estarem em ares de superioridade, sejam elas culturais como: da moda, musicais, etc. Assim, as marcas de roupas, por exemplo, as músicas consideradas “culturais” e outros estereótipos de expressões cotidianas, são utilizados por grupos dominantes para que os mesmos se diferenciem dos demais e criem “ares de superioridade cultural”. Ou seja, simplificando, são uns babacas ignorantes que não conhecem o real conceito de cultura. Se dizem “culturais”, mas os mesmos é que estão viciados e dopados da ignorância cultural e da discriminação burra.
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Não são poucos, são muitos mesmo, percebe-se que grande parte das pessoas, principalmente no senso comum e, em grande parte do meio acadêmico, os quais já presenciei e assisti dizerem frases ignorantes tipo como: “ter cultura é ouvir MPB, jazz e blues”. Confesso, sou fã de MPB, amo as músicas do Chico Buarque de Holanda, sou fã de jazz e, há tempos atrás, eu ia quase toda sexta no chorinho da avenida Goiás (19:00 hs) e no jazz do Cine Goiânia Ouro (às 23:00) e, recomendo, mas isso de forma alguma faz eu ser mais “cultural” do que nossos avós e pais, por exemplo, que ouvem o "modão" de viola lá do interior que, os mesmos já ouviam desde que eram  crianças.

Considerando, de forma simplificada, que cultura são práticas e expressões no meio social que indivíduos expressam e absorvem em seus estilos de vida, muitas vezes, desde a infância, interagindo com o ambiente em que vivem, junto com as mudanças e inovações sociais que surgem, podemos dizer que pessoas que participaram do imenso êxodo rural e do grande processo de urbanização das últimas décadas que o Brasil passou, incorporaram o estilo urbano em suas raízes do campo e, daí, fomentaram expressões do chamado sertanejo urbano, que muitas pessoas de “altíssimo nível cultural” dizem ser músicas que são “ópio do povo”.

A verdade é, acompanhando algumas pessoas do meio acadêmico, não sei qual o pior ópio, se é “afogar as mágoas” em um sertanejo universitário ou, "afogar as mágoas" na erva danada em show de regue (nada contra regue, gosto de regue mas, exemplifico neste contexto o que já presenciei), criticar o mundo sem melhorá-lo e entornar na bebedeira. Qual a diferença? Portanto, isso só ratifica a ignorância daqueles que se acham “acima da carne seca” mas são verdadeiros poços de ignorância.


Nada contra "curtir os momentos" da forma que quiserem e, afinal, gosto é gosto, e isso, ninguém se discute. O problema é, quando pessoas, na hipocrisia, ouvem certos estilos musicais particularmente e, publicamente demonstram gostar de estilos considerados mais "eruditos", para se apresentarem em estereótipos "culturalizados", ou, gostam de determinados estilos culturais, mas discriminam outros estilos justamente para se vestirem de uma roupagem reconhecida em grande parte do senso comum e acadêmico como "cultas".

Já vi pessoas do meio acadêmico me dizerem em particular que gostam de uma música sertaneja e até curtir  show ao vivo (ratifico, já vi mesmo) e, quando está na academia (universidade) a mesma ficar indiferente às modas de viola e até negarem que gostam de sertanejo (fui testemunha ocular), incrível.

Se os brasileiros discriminassem menos suas diferentes culturas entre os estados da federação, poderíamos ter um turismo cultural muito mais abrangente e forte. Muitas pessoas vão ao nordeste, por exemplo, não só por causa da beleza daquela região, mas, um dos motivos principais é, justamente, a cultura fantástica daquele povo, como o artesanato e o forró pé de serra (que, particularmente gosto muito).  

Um povo sem identidade e sem memória é um povo sem referencial, manipulado e, muitas vezes, a mídia de massa incentiva as pessoas a discriminarem suas próprias raízes, o que é lamentável. Estas pessoas se atolam no poço da ignorância e querem ser algo que não são, acabam sem identidade e frustradas sem referencial e, cedo ou tarde, muitas voltam para ações sociais segundo suas raízes sem aproveitar e valorizar a identidade de seus ancestrais enquanto estavam iludidas pelos estereótipos culturais ilusórios.

"Puxar x" em um estado seria mais superior do que "puxar o r" ou o "n" em outros estados? Bourdieu diz que não, que os sotaques são expressões simbólicas de identidade. Afinal, apenas "puxar o r" na fonética da palavra porta, por exemplo, não se obtém erro gramatical. 

Segundo vários autores antropólogos não existe cultura “superior” ou “inferior”, todas as práticas culturais regionais são expressões de identidade e, cabe o Estado brasileiro preservá-las. Desta forma, não podemos dizer que a cultura dos índios que estão lá no Xingu é inferior às práticas de pessoas que vivem em Nova York pois, os indígenas preservam suas tradições por opção e, possuem suas práticas culturais arraigadas relativamente em outro contexto histórico.

Segundo a Emenda Constitucional nº 48, artigo 1º, § 3º, inciso V, é  prevista a fomentação por parte do Estado da  "valorização da diversidade étnica e regional". Também, o artigo 215 da Constituição Federal é bem claro quando diz: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. Estas leis supramencionadas são apenas fragmentos de uma vasta legislação que protege o patrimônio cultural imaterial, inclusive, a cultura popular.

Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, cultura é: “ato, efeito ou modo de cultivar. Complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característica de uma sociedade" (p.508)

Eu poderia discorrer uma infinidade de noções básicas tiradas de antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores sobre o conceito de cultura que, só ratifica as noções básicas já supramencionadas, mas creio que, até então não há essa necessidade e, o texto ficaria enorme (muito maior do que já está). Portanto, até aqui creio que seja o suficiente. 

Abraço a todos!      
       


BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Lisboa, Portugal: Difel, 1998.

       

domingo, 12 de junho de 2011

Diário de um Esquerdinha.

Desde a faculdade as pessoas me perguntavam se politicamente eu era de “esquerda” ou de “direita”. Em um texto que postei neste blog que se chama “O Paradoxo Ideológico e Partidário no Brasil” eu exponho minhas colocações sobre o que penso disso tudo e, já que não tenho vínculos políticos com ninguém, postarei aqui um diário pseudônimo do que já vi sobre alguns (não todos) esquerdinhas por aí.

“Olá, meu nome é Disney, minha mãe me deu este nome porque meu irmão mais velho, quando era criança,  gostava muito de passear no parque do Mickey Mouse nos EUA.

Meu irmão se chama York (só que o motivo deste nome é uma outra história e, não cabe aqui relatá-la), ele já é advogado bem sucedido, ganha muito dinheiro, mas formou-se em uma universidade particular. Eu? Bem, vou contar-lhes resumidamente minha história.

Estudei nos melhores colégios de classe média alta que há na minha cidade, fazia bagunça, mas, sinceramente, nunca gostei de estudar e, quando fui prestar vestibular, eu quis ser "chique" e ter um status maior que meu irmão, e prestei em uma universidade federal para o curso de história. Eu havia tentado outros cursos como direito, jornalismo e até medicina nas federais, mas vi que era muito difícil e, como sempre gostei de política, economia e história, prestei para história.

Na faculdade eu achava muito bonito me engajar pelas causas sociais, os partidos de esquerda possuem um discurso lindo em pró do social, entretanto, eu não abria mão de frequentar os melhores bares e boates da cidade nos finais de semana. Também, não abria mão de viajar para a Disney nas férias quando eu queria, mesmo eu sendo um crítico ferrenho do capitalismo.

Eu me sentia muito mal na faculdade federal por ter vindo de classe média alta e estudar ao lado de estudantes que vieram de escolas públicas. Aqueles pé-rapados, se sentem os intelectuais mas não estudaram em colégios bons como os que estudei, mesmo assim, podem ter mais sucesso na vida do que eu, por isso, eu os desprezava, os discriminava e, me engajava nas causas sociais para parecer-me um idealista perante a sociedade. Não estudava, vivia no DCE e no DA com outros que tinham mais razão para lutar contra as  desigualdades do que eu, mas eu fazia tudo por estas causas e pelo povo. Me sentia melhor do que que outros companheiros de sala que não estudavam porque tinham que trabalhar, além de eu ter uma justificativa para os meus primos ricos de estar ali por ser um idealista.

Também criei raiva dos médicos, engenheiros, advogados e todos aqueles representantes da “classe burguesa”. Só do meu pai que é um empresário industrial falido que não tenho raiva, porque ele é meu pai e, quando ainda seu negócio ia bem, o mesmo me passava a mesada no final do mês para eu continuar lutando pela causa proletária.

Quando eu pensei que eu estava lascado financeiramente (já estava com vergonha do meu irmão que já era milionário) e,  já adulto, ainda não havia me formado. Então, surgiu uma luz no fim do túnel, me filiei a um partido de esquerda, passei então a me engajar mais fortemente na causa operária, tudo pelo povo e, acabei virando sindicalista.

Como líder sindical minha vida melhorou bastante, eu já andava de carro do ano, depois veio os carros importados e, daí para me tornar deputado federal e prefeito da minha cidade foi um pulo.

Posteriormente, passei a investir no mercado de capitais, hoje sou um governista convicto e, meus companheiros vivem muito bem.

Ah! E o povo? E os proletários? Ainda continuo na causa por eles.”

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Sonho Azul de Dom Bosco (Homenagem a Goiânia).

Como goianiense, eu não poderia deixar de homenagear a cidade que eu tanto amo. Para isso, posto aqui uma homenagem que o escritor Mario Prata fez a Goiânia, através de uma crônica, logo depois que ele passou pela capital em 1999.
A crônica de Prata foi publicada no jornal O Estado de São Paulo em 27/10/1999. A homenagem de Mário foi tão bem feita que, percebe-se exageros. Todavia, um carioca do meu antigo trabalho, que leu a crônica, me disse uma vez que, nunca tinha visto "uma homenagem tão bela" em forma de crônica a uma cidade como esta de Prata.
Só para "registro", textos dos livros de Mario Prata já foram publicados em diversas provas de vestibulares do país, Prata escreveu para jornais como O Estado de São Paulo, foi colunista durante vários anos da Revista Época, escreveu novelas para a Rede Globo, etc.

Prata, relatou a seguinte crônica depois que passou por Goiânia em 1999.
Observação: A crônica foi escrita em um contexto de dez anos atrás. Entretanto, apesar dos exageros e, do encanto de Prata pela cidade, a homenagem como um todo não deixa de ser bela.


O SONHO AZUL DE DOM BOSCO.

Por Mario Prata.



"Lá embaixo, aquele verde misturado com as nuvens brancas dá um certo azul, visto lá da janelinha do avião. Quando Gagarin disse isso, em 61, o mundo ficou boquiaberto: a Terra é azul! Depois vieram as fotos e o poema russo esvaiu-se com o ar poluído do fim de século.
Foi pensando no Gagarin e em São João Bosco que eu aterrissei no Planalto Central. Antes de Gagarin, há uns 150 anos, o criador dos salesianos, o tal Bosco, teve um sonho: no centro do Brasil surgiria uma cidade, a cidade do futuro. Uma cidade azul, imaginava eu, ainda moleque. Ao Planalto Central cheguei e dormi. E, apesar de não viajar pelo espaço sideral e nem ser santo, sonhei.
Sonhei que as ruas da minha cidade não tinham calombinhos, nem buracos. Que as calçadas eram bem-feitas e bonitas. E pessoas passeavam o dia inteiro por elas. Indo e vindo, como reza a Constituição. No centro das alamedas e das avenidas, coqueiros rodeados de canteiros multicoloridos. Bem-arranjados e bem cuidados. E cheirosos. Coisa de sonho mesmo, lúdico e utópico.
Sonhei que o prefeito da cidade tinha um computador na sala dele onde cuidava dos seus cidadãos, a toque de indicador. Achava um bairro, uma rua, uma casa e dizia: aqui tem um tuberculoso, que se trata no hospital tal, e tem consulta amanhã. Só em sonho mesmo.

E no sonho não tinha crianças analfabetas e todos gostavam de ler. Sonhei que o secretário da Cultura daquele Estado era um poeta e dava dinheiro para o cinema (...).
No sonho, os promotores eram todos jovens e tinham pouca gente para acusar. A criminalidade no meu sonho era bem baixa.
Sonhei que ali as pessoas viviam felizes como numa vila nova. E lá os ônibus eram azuis como os olhos de Gagarin.

E só fui acordar de noite, numa praça chamada Cívica, onde um jovem maestro cabeludo tocava Ravel, Tchaikovski e uma multidão de pessoas ouvia e aplaudia. Era aniversário daquela cidade que eu sonhava. A cidade era uma menina que fazia 66 anos.
E, no meio da multidão, o prefeito andava com segurança (e sem segurança) no meio do povo.
E, no auge da sinfonia russa, uma festa de rojões e luzes e pirotecnia invadia o espaço. E o povo gritava, feliz:
- Viva Goiânia! Viva Goiânia!
É, eu estava lá no meio do povo. Eu e o Mateus Shirts, que apareceu no sonho, para ouvir uma mulher dizer para ele - e sabe-se lá por que: a coisa mais bonita do mundo é o Estado e a prefeitura trabalharem juntos. Eu e o Mateus não sabemos por que ela nos disse aquilo.
E aí - e já não era mais sonho - uma garotinha goianiense, ouvindo o Guarani de Carlos Gomes e olhando os fogos explodindo lá em cima, perguntou para o pai dela:
- É Deus, pai? É Deus que está fazendo isso?
Não, menina, não era Deus, não. Era o povo mesmo, era o cidadão lá do Brasil Central.
Que me desculpe o Juscelino e todos aqueles que hoje moram - e mamam - em Brasília, mas quando o meu querido São João Bosco, sonhou com uma cidade do futuro no interior do Brasil, foi com Brasília, não. O buraco era um pouco mais embaixo.
Pra ser mais exato, 202 quilômetros pra baixo.
A cidade azul do dom Bosco, o mundo azul do Gagarin, chama-se Goiânia. Uma cidade onde os ricos emergentes não latem. Nem mordem.

Tá duvidando? Vai lá, vai.
O duro é voltar para São Paulo, esta unha encravada e desgovernada há tanto tempo, que continua se achando culta e civilizada".
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo 27/10/1999